20/04/09

DISCOTECA



Granada

La Carne


Lembro de uma música do De Falla em que Edu K cantava que “Osasco é Foda!”. O município localizado na zona Oeste da capital, cidade que viu o escritor João Antonio chutando tampinhas pelas suas ruas, sempre me pareceu mesmo uma usina de bandas legais: do punk rock do Malavelha, passando pelo grindcore do Rot e o thrash do Antítese, o rockabilly dos Grilos Barulhentos, até um dos pioneiros do rock independente, o Mickey Junkies. Isso sem falar no Subtotal, no Mamilos Vicious e mais uma porrada de nomes interessantes que nasceram e cresceram na região. Osasco também abrigou um sem número de botecos onde grande parte dessas bandas puderam se apresentar, como o Porto Guadalajara, a Kawashi, o Taco & Birra, o Arena Metal.


Por outro lado, é muito triste constatar que todos esses lugares não existem mais. Muitos, inclusive, duraram pouco. Osasco é uma cidade de vida cultural provinciana, ligada a projetos politiqueiros e grupinhos formados pelos “artistas da cidade”, quase sempre virando as costas para figuras como a do poeta Paulo Netho, que tenta desde sempre estabelecer um espaço efervescente de cultura na cidade. As próprias bandas citadas acima há tempos não tocam na região, que está mais preocupada em instalar novos shopping centers e igrejas evangélicas do que apostar em seus “filhos” mais pródigos. Até aí nenhuma novidade, afinal essa sempre foi a política do sistemão.


É justamente de Osasco, de um bairro da região ferroviária chamado Quitaúna, mais conhecido pelo famigerado Quartel do Exército, palco de verdadeiros temores juvenis em época de alistamento, que vem umas das bandas mais instigantes do cenário underground nacional: o La Carne. Os caras lançaram no final do ano passado, sempre no bom e velho esquema do faça você mesmo, Granada seu quarto disco.


Surgida em 1995, a banda trouxe à luz aquele que é seu trabalho mais maduro. Precedente do ótimo La Carne (1998), ainda o meu la carneano de cabeceira, e dos bons Bom Dia, Barbárie (2002) e Desconhece o Rumo mas se Vai (2003), Granada acentua as características mais ímpares do grupo.


Formada por Marcos Linari (Maninho para os mais chegados) nos vocais & letras, Carlos Remontti no contrabaixo, Jorge Jordão na guitarra e Leandro Reinikova (mais conhecido como Chicão) na bateria, a banda traz em seu liquidificar sonoro referências musicais como Wedding Present, Screaming Trees, New Model Army, Hüsker Du, Smack e Fellini. Referências estas que se misturam a literatura beatnick, Bukowski e toda a cacofonia da cidade industrial em que vivem. Aliás, alguns dos versos de Linari são os que melhor traduzem os becos e o clima de Osasco. Muita gente nem sequer ouviu falar deles. Tudo bem, é que os caras não freqüentam os basfounds indies, repletos de esnobes filhinhos-de-papai recém saídos de uma faculdade de moda, praticando seu inglês imperialista de merda como bons chimpanzés do terceiro mundo, tampouco têm videoclipe veiculado na MTV e nem são sensação no myspace. Nunca li uma matéria sobre eles na Rolling Stone. É só uma banda de trabalhadores, da “classe trabalhadora” como costumam dizer, caminhando por uma estrada construída por eles próprios e mais ninguém.


O trabalho gráfico de Vânia Ferreira merece destaque, muito embora eu prefira a arte da capa de Flávio Remontti para a versão para download lançada pelo site Senhor F Virtual.


Granada, como os outros discos da banda, exige uma audição atenta. Na primeira passada pelas faixas, têm-se a falsa impressão de certa linearidade musical, logo dissipada num segundo passar de ouvidos pelas canções do álbum, demonstrando uma coesão de idéias melódicas ao invés de qualquer sugestão de horizontalidade.


Em “Contracorrente”, faixa que abre o disco, o baixão à Peter Hook bem marcado, completa, com as batidas retas de Chicão, uma cozinha segura e coesa, emoldurando em looping o característico timbre de Jorge com seu conceito de guitarra limpa, como nos discos anteriores, deixando de lado, feito uma espécie de velho bluesman enfurecido, o uso de qualquer pedal de efeito. Linari destila em canto límpido versos que soam como profissão de fé dos la carnes: “Eu disse pra você, íamos ter que suportar isso / Vão nos deixar viver? / Ou nos jogar com a cara no chão? Mesmo que enfim digam não, ou que nos lancem maldição, conheço um jeito baby...”. Logo de cara, uma das melhores do disco e, em minha opinião, ao lado de “clássicos” como “Viaduto do Sol”, “Demônio Triste”, “Jukebox” e “Desconhece o Rumo mas se Vai”, uma das melhores do La Carne.


Em seguida, a faixa que dá nome ao disco traz uma balada ao mesmo tempo climática e nervosa em sua dinâmica alternada, desta vez com o baixo de Carlinhos na cara e Linari mostrando nuances no modo de cantar. Outro “clássico” que ao meu ver se junta à lista acima citada. Só acho que a voz na gravação ficou na mesma intensidade do baixo e da guitarra, deixando-a por vezes abafada. Pensei na voz mais à frente nesta música, já que ela é em grande parte falada, remetendo ao estilo de cantar de Lou Reed.


“Malasuerte” é uma crônica de personagens urbanos, daqueles típicos loucos decadentes que habitam as ruas sujas de qualquer bairro. Há uma citação do poema “Elegia a Dona Joana, a Louca” de Federico Garcia Lorca, na voz de Fernanda D’umbra, atriz e cantora da banda Fábrica de Animais que, a meu ver, ficou abafada e um pouco baixa na gravação.


“Blues dos seus Absurdos”, um hard rock com toques de psicodelia, é a melhor canção de Granada, em que todos os elementos que fazem do La Carne uma banda ímpar aparecem de uma forma cristalizada: vocal melódico, guitarra limpa, baixo bem marcado e bateria pesada. “Trago um sorriso torto no rosto, e no peito eu trago o seu punhal / (...) Trago a minha estrada no rosto e te devolvo agora o seu punhal ”. Linari tem um jeito muito particular de escrever, com sua prosódia torta, em letras que se aproximam mais de estruturas prosaicas, sem, no entanto, deixar de reverberar toda sua poesia suja e, por vezes, raivosa. Em “Decida” ele canta “Amor, tenho 40 anos e acho que não aprendi nada”, uma verdadeira pérola. Já na letra punk de “Tratadus Pilantrae (T.G.P.)”, fala que a tal revolução “virou pastelão, sabor mensalação” e pergunta “A revolução, no cheque ou cartão?”.


Em “Sambakaus”, um rock instrumental com andamento de samba, com direito a apito e tudo, o La Carne faz uma brincadeira experimental. “Vergonha na Cara”, outra grande faixa, a guitarra dita o ritmo, deixando caminho aberto para o jeitão malandro de cantar de Linari, zoando as figurinhas afetadas do hype. “Ancestrais” tem um puta baixo e vocais mais rasgados. A esta altura já tinha me convencido que a entrada de Chicão na batera tinha trazido mais “pegada” à banda, o que pude constatar em um show ao vivo no auditório do Sesc Vila Mariana. “Londres está uma Merda” completa a quina das minhas preferidas do disco e vai para minha coletânea particular do La Carne.


Dois estilhaços finalizam o disco, a balada “Olhos Escuros” e a instrumental “El Cid”, com um interessante arranjo de sanfona de oito baixos.


Granada, embora careça de direção musical (economizaram nos agudos), é um disco que consolida definitivamente o La Carne na posição das principais bandas de rock do país, alçando-os ao mesmo patamar da Patife Band do Paulinho Barnabé e da Butchers Orchestra do “açogueiro” Marcos Butcher.


Muito embora eu tenha nascido no outro extremo da cidade, no bairro do Tatuapé, vivi alguns anos em Osasco. Há um tempo mudei de lá, mas quando ouço um trabalho como Granada, sempre me sinto acometido de uma vontade incontida e de um orgulho besta em repetir em alto e bom som o refrão do bardo gaúcho: “Caminha, que aqui é de Osasco!”

13/04/09









REVISTA DE AUTOFAGIA


Não é nada fácil manter uma revista de poesia no Brasil. Edito a Etcetera desde 2001 e sei bem a encrenca que é. Isto porque estou falando de uma revista publicada na internet. Só para se ter uma idéia, nossa edição de número 23 está pra sair desde Outubro do ano passado. Falta grana, falta tempo, falta tudo. Só não falta vontade. Agora pode pegar essa encrenca da qual estou falando e multiplicar por três. Sim, porque quando você tem de imprimir e distribuir, aí o negócio fica mais problemático ainda. Ter de lidar com a burocracia toda de leis de incentivo e o escambau vai tornando a coisa parecida com um conto de Kafka. Bom, alguém deve perguntar: “Por que catso então continuam fazendo?”. Em minha opinião a resposta é simples: Porque queremos fazer e ponto final. Bem, talvez extrapole o "querer", talvez seja mais adequado responder “porque temos que fazer”.


Estou falando isso por conta do lançamento da Revista de Autofagia para download gratuito. A Revista de Autofagia é editada pelos poetas Makely Ka e Bruno Brum. Desde a primeira edição impressa, conta com colaboradores de diversos estados brasileiros e de diversas áreas de atuação: fotografia, artes gráficas, música, poesia, jornalismo, performance. Estão disponíveis para download o primeiro e o segundo número. Enquanto isso, os caras estão finalizando a terceira edição, a ser lançada em breve.


Participei do segundo número com a série de desenhos em nanquim chamada Caixinha de Música.


Número um (Junho de 2006)
Colaboradores: Amarildo Anzolin, Elaine Ramos, Estrela Leminski, Francisco Kaq, Fred Girauta, Guilherme Wisnik, Karin Bianchini, Lucas Virgolino, Luciana Tonelli, Marcelo Sahea, Mario Domingues, Mario Teixeira, Nicolas Behr, Pirata Z, Rafael Alvarenga, Reuben da Cunha Rocha e Ulisses Moisés. Clique aqui para fazer o download.

Número dois (Novembro de 2007)

Colaboradores: Ahmad Jarrah, Bernardo Amorim, Bruno Brum, Elisa Andrade Buzzo, Espaço Cubo, Hans Henny Jahnn, Lenissa Lenza, Marcus Tulius Franco Morais, Pablo Capilé, Renato Negrão, Rodrigo Araújo, Sandro Saraiva, e Vítor Leal Martins.Clique aqui para fazer o download.

É possível adquirir os dois números impressos também, o que vale muito a pena pois trata-se de um trabalho gráfico dos mais interessantes. Para mais informações entre no Sabor Graxa ou escreva para o Bruno Brum: bn.brum@gmail.com

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04/04/08






banana




homem com cabeça de galinha & chagas de jesus cristo (os pregos são de uso exclusivo do fruidor)



monociclo


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20/03/08

LIVROS PARA DOWNLOAD



Depois de
carne viva de Marcelo Sahea, outro ótimo livro de poemas para download gratuito nesse mundão da world wide web, trata-se de das infimidades, do mineiro Leo Gonçalves. Por coincidência, Leo é também um dos nomes presentes no especial sobre Poesia que a Etcetera publicou em sua 18ª edição (clique aqui para conferir). Para baixar é só clicar aqui Publico abaixo o texto que escrevi sobre o livro:

das infimidades (2004, Edições in vento) – Leo Gonçalves

É um grande prazer folhear das infimidades, primeiro livro de poesia de Leo Gonçalves, mineiro de Belo Horizonte que também publicou traduções de Canções da Inocência e da Experiência, de William Blake (Crisálida, 2005, em parceria com Mário Alves Coutinho), Isso, de Juan Gelman (UnB, 2004, em parceria com Andityas Soares de Moura) e a comédia O doente imaginário de Molière (Crisálida, 2002). Uma edição pocket impressa em topografia que lembra muito os livrinhos marginais de Plínio Marcos. A escolha pelo artesanal, pelo alternativo, não é gratuita. A poesia do autor se evidencia através de um humor sutil, da ironia, da urbanidade, do detalhe. Flaneur que colhe fragmentos no dia-a-dia da cidade. Apanhador do ínfimo, do pequeno, do pouco.

Poemas curtos que se assemelham ao haicai, sem, no entanto, o mesmo rigor formal, são a tônica em das infimidades. Leo Gonçalves flerta com a poesia marginal, sobretudo Leminski, Chacal e Cacaso, seu texto tem como marca o frescor, a espontaneidade. Muitas vezes o ritmo de seus poemas se aproximam da canção. Existe uma certa coloquialidade em sua poesia, um descuido proposital, aquela aura vadia, vira-lata, livre e descompromissada que confere leveza ao trabalho. Há construção, claro, mas a principal matéria usada pelo poeta para engendrar seus textos é o acaso, ou melhor definindo, a elaboração do acaso.


Outro livro para baixar gratuitamente é Sereias de Bengala, novo do escritor carioca radicado na Suécia, Jorge Cardoso. Este, porém, só foi lançado virtualmente. Uma bela iniciativa da pequena grande editora Baleia .

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16/03/08

POEMA ILUSTRATIVO




O poeta Paulo de Toledo "ilustrou" com um puta texto um de meus desenhos. No final do ano passado, ilustrei a primeira coletânea de poemas do meu parceiro corinthiano, o ótimo 51 Mendicantos (editora Éblis). O curioso nessa parceria é que Paulo é de Santos, mas é corinthiano roxo e eu nasci em São Paulo, mais precisamente no bairro do Tatuapé, mas sou Santos F.C. de glórias mil.


10/03/08



estado profundo de melancolia






kazuo ono





máscara & headphone




04/03/08

REVISTAS ELETRÔNICAS

O Diário de Maringá publicou em seu caderno de cultura uma matéria bem interessante sobre revistas eletrônicas. Estão lá o Cronópios, a Germina e a Etcetera, revista que edito com o Douglas J. Silva. O texto ficou bacana, só faço uma pequena observação: não me defino como animador cultural, só respondi a pergunta sobre qual era minha profissão, e é isso o que faço atualmente. Nunca me defini como porra nenhuma. Eis o texto:

D+ | Literatura | Atualizado Domingo, 27/01/2008 às 02h00

Sobre livros e cliques
Sites e blogs independentes sobre literatura ocupam o vazio deixado pelas antigas revistas e suplementos literários; editores dizem que publicam o que gostariam de ler

Thiago Alonso
alonso@odiariomaringa.com.br

Na mesma medida em que revistas tradicionais - ou nem tanto - sobre literatura desaparecem das bancas e das livrarias do País, novos sites e blogs sobre livros surgem a cada dia na internet. Antes, é bom distingüir que tipo de revista (ou impresso) sobre literatura temos (ou tínhamos, talvez deva ser este o tempo do verbo). Há aquele que é encartado em jornais, em cadernos culturais ou como suplementos literários, e que têm uma preocupação assumidamente mercadológica. Não é raro, portanto, que se encontre nos suplementos sobre livros comentários sobre os mesmos assuntos, afinal, quem dita as regras é o mercado. Um dos exemplos era a revista EntreLivros, que encerrou sua atividades em dezembro do ano passado.

Em um viés contrário, as revistas literárias são bem mais abertas às novidades, sem se prender aos modismos e assuntos que ditam a pauta do jornalismo diário. Os temas são mais abertos, não pautados pelo comercial, abrangendo um leque de idéias que, em um primeiro momento, não teriam espaço. Além disso, nomes desconhecidos do grande público geralmente aparecem na autoria dos textos. Embora os tipos de publicação tratem de literatura, as diferenças são enormes, tanto para quem lê quanto para quem edita esse tipo de material. Um outro traço em comum une as revistas literárias (que é um reflexo do mundo contemporâneo): geralmente são publicadas na internet.

Essa, no entanto, não é a única semelhança entre essas publicações, que reúnem novos escritores entre seus leitores e colaboradores. Sandro Saraiva, de 34 anos, é graduado em Letras, pós-graduado em literatura contemporânea e define-se como animador cultural. Ele é um dos editores da revista Etcetera (http://www.revistaetcetera.com.br/) e diz que o leitor de revistas eletrônicas é um tipo de pessoa que não fica esperando a informação, mas corre atrás dela. "Nunca fizemos pesquisa de perfil, mas pelos e-mails e comentários postados na rede, percebemos que é variado; de escritores a estudantes, de curiosos a professores universitários", diz.

Para Edson Cruz, de 48 anos, que além de editor e revisor da Revista Cronópios (http://www.cronopios.com.br) tem formação em Psicologia, Música e está cursando Letras, saber o perfil do leitor de revistas literárias na internet é difícil, justamente pelo meio onde é publicada. "A internet é uma terra de ninguém. Você nunca sabe quem está observando", diz, afirmando que a massa que dos leitores da Cronópios é formada por escritores, pessoas que estão se iniciando na literatura ou aqueles que têm a curiosidade de saber o que está acontecendo de novo na produção. Já a Germina Literatura tem sob seu comando a advogada Mariza Lourenço e a socióloga e redatora Silvana Guimarães. Elas concordam que aqueles que lêem a Germina são, em sua maioria, escritores e poetas.

Nenhuma dessas revistas lucra com a iniciativa. Na verdade, apesar de publicadas na internet, têm despesas e muito trabalho, já que para organizar todo o material recebido é necessário tempo. Sandro Saraiva, da Etcetera, diz que a revista surgiu em 2001, inspirada nos fanzines com a atitude do it your self. O desejo era publicar um conteúdo sobre cultura e arte. "É aquela velha história: publicar uma revista que gostaríamos de ler", diz Saraiva.

A Cronópios teve o mesmo início. "O site surgiu porque sentimos a necessidade de fazer algo bacana, lúdico, sem o siso que costumamos ver em revistas e sites literários por aí", diz o editor do site Edson Cruz. Já a Germina Literatura (http://www.germinaliteratura.com.br/) começou como uma seção em um outro site, no ano de 2003. Depois de reformulações, virou revista em 2005. As editoras Mariza Lourenço e Silvana Guimarães explicam que o propósito é o mesmo: "divulgar literatura, estimular o debate. Hoje, possuímos um grande acervo de obras de escritores, poetas e especialistas".

Pluralidade é a palavra
Conteúdo das revistas eletrônicas de literatura é pautado muito mais por busca da diversidade e desejo de liberdade do que por razões de mercado

Thiago Alonso
alonso@odiariomaringa.com.br

A principal característica da revista literária eletrônica é a pluralidade e liberdade com que tratam a literatura. Na maioria deles, o que pauta é qualidade do que é publicado, não a época, o lugar de nascimento ou o sobrenome do autor. Muito menos razões mercadológicas. São publicações mais democráticas. A Etcetera, por exemplo, especializou-se em autores menos conhecido.

"Publicamos autores underground, entendendo o underground como linguagem e não simplesmente como meio de produção. A questão de gênero e época pra nós é uma idéia morta. Entendemos literatura como algo vivo, pulsante, mesmo estando falando de autores como Augusto dos Anjos, por exemplo. Selecionamos o material que tenha a ver com nossa linha editorial e que, em nossa opinião, tenha adequação entre forma e conteúdo, simples assim", diz o editor Sandro Saraiva.

A Cronópios é ainda mais livre, basta a disposição em colaborar, garante seu editor. "[Publicamos] todos os autores e gêneros. Claro que os que aceitarem colaborar, pois não temos patrocínio nenhum e não podemos pagar nada. Aliás, só gastamos...", revela Edson Cruz. Já para a Germina, a literatura contemporânea é o carro-chefe. "Não discriminamos gêneros literários ou sua época, mas privilegiamos a literatura e a arte contemporânea. Recebemos colaborações periódicas (e graciosas) de escritores, poetas, jornalistas, artistas plásticos, músicos", diz Silvana Guimarães.

"Em nossa seção de autores, publicamos novos talentos ao lado de escritores e poetas reconhecidos pelo público. A seleção fica por nossa conta, às vezes, assessorada por especialistas que compõem o nosso conselho editorial informal", explica a co-editora da Germina.
Com iniciativas como a das revistas literárias na internet, a literatura tem seu espaço garantido. Basta o leitor ir atrás.

Como é o mercado de revistas literárias eletrônicas no Brasil? Existe a possibilidade de ganhar dinheiro?

Sandro Saraiva (Etcetera): Boa pergunta. Se existe possibilidade de ganhar dinheiro, ainda não descobrimos qual é, mas com certeza deve existir. Não saberia te dizer, talvez através de leis de incentivo, apoios culturais, etc., se consiga manter bem uma revista eletrônica com pessoas recebendo pelo trabalho que fazem. Não vislumbro um mercado propriamente dito, pode até ser que exista um, mas ainda não fomos apresentados a ele.

Edson Cruz (Cronópios):
Obviamente, tem crescido muito. E isso é bom. Os sites, ou revistas eletrônicas, estão se aprimorando, usando mais e melhor os recursos da web. Hoje em dia já não vale colocar textos em Word num site feito sem apuro e sem pegada conceitual. O Cronópios veio para contribuir com esta mudança.

Mariza Lourenço e Silvana Guimarães (Germina): Não possuímos informações confiáveis sobre o mercado de revistas literárias. Não há um mecanismo de controle eficiente, que possa demonstrar quantas são, na verdade. Volta e meia, temos notícias de revistas que surgem e revistas que acabam, porque não se sustentam. Nossa análise, portanto, fica restrita àquelas que já conhecemos, em geral, de propriedade de editores conhecidos. Nesse nicho, ousamos dizer, que o mercado eletrônico literário está bem servido. As que já se firmaram, são excelentes.

A internet tende a tomar lugar do impresso?

Sandro Saraiva: Não.

Edson Cruz: Acho que cada vez mais. Nos Estados Unidos 70% da publicidade feita em jornais e revistas já migraram para a internet. Isso é significativo. Com o avanço da tecnologia e monitores mais adaptados para transporte e leitura, as publicações em papel vão diminuir sensivelmente. Pelo menos as árvores sairão agradecidas...

Mariza Lourenço e Silvana Guimarães: Acreditamos que a curto ou médio prazo, não. A Internet é uma mina de meios preciosos para a divulgação da literatura, sejam visuais ou auditivos, que permitem, por exemplo, que um poema dance na tela. Existem coisas lindas por aí. Que, no entanto, mesmo quando mais rápidas, ainda são lentas para o leitor mais impaciente. Às vezes, cansativas, por excesso de imagens e/ou efeitos especiais.

Ela é um bom suporte para quem nunca foi publicado e para quem busca divulgar o que publicou no papel. Mas a maioria, conforme já constatamos, prefere a palavra escrita. Há aqueles, inclusive, que sentem falta do "cheiro" do livro, ou ressentem-se da impossibilidade de usar o "tato" para folhear o papel. É uma questão absolutamente cultural, não é mesmo? E que demora muito a mudar.

Quais são as despesas desse tipo de revista e como fica a questão de custos?

Sandro Saraiva: No caso da Etcetera, nossa única despesa é com o provedor. Em torno de 40 reais por mês.

Edson Cruz: Os custos são divididos pelo Pipol [o outro editor da revista] e por mim. Custos de provedor, banda larga. Fora as horas diárias de trabalho, troca de emails, revisão, ilustração, gravação de entrevistas, produção de programas, edição dos programas, etc...

Mariza Lourenço e Silvana Guimarães: Nossas despesas referem-se unicamente ao pagamento de domínio e hospedagem do site, e, excepcionalmente, ao pagamento de algum serviço especializado para a confecção de uma página que, porventura, use linguagem que não seja de nosso conhecimento. De resto, as editoras fazem tudo (de graça).