31/01/07

FANTASMAS



: Rainha Gorda

Senhora D espreita no recôndito do instinto, nos cantos sombrios da volúpia. Matrona nazi arrastando correntes e manuseando a coleira de Pavlov. Gorda como uma porca. Vilipendiando seus homenzinhos de brinquedo. Marcando a carne do rebanho com impressões violáceas. Algumas cicatrizes nunca se fecham - em toda ferida há um tanto de ternura. Enrabando maricas fantasiados como empregadas domésticas. Senhora D com chicote & couro preto emerge como o Monstro da Lagoa no meio da noite e desperta todos os demônios adormecidos. Perscruta a alma em frangalhos. Perversõezinhas dóceis e ordinárias chafurdando a sola de sua bota de salto alto, devotando sua fúria e sua compassiva piedade. Amor austero & visceral. Genuflexo. O sonho mais quente & belo.



: Olímpica

Como num dia santo, num feriado, num dia de sol com a leve fragrância da brisa do mar e sereias submersas no coração do oceano, surge a menina que constrói castelos de areia na neve. Ela tem olhos orvalhados pela aurora. Ela tem o sorriso do gato de Alice, ilusão de ótica no deserto do Atacama.




24/01/07

FANTASMAS



: You shook me all night long

Vladislau passou a adolescência trancado no quarto entre livros e discos de rock. Quase nunca saia de seu bunker. Sentia-se como um peixe fora d’água ou, muito pior, como num aquário transbordando até a boca. Mal conversava com as meninas. Não tinha nada de interessante a dizer a elas. Não tinha nada a oferecer. Até gostava de uma das garotas do colégio, mas não ousava se aproximar. “Frank” era seu único amigo. Um amigo imaginário. Juntos tinham uma banda de rock, o The Madmen. Vladislau fazia os vocais e tocava guitarra, “Frank” se encarregava das baquetas. Vladislau era o rei da air guitar. Diante do espelho esperneava feito Angus Young, e quase sempre, no meio de um solo alucinado, saltava chutando o ar, igual ao Pete Townshend. O The Madmen teve a carreira encerrada quando Vladislau começou a trabalhar e ingressou na faculdade. A vida passa bem depressa, o velocímetro aponta 160, e num piscar de olhos alguma coisa escapa entre os dedos. Vladislau casou e teve filhos, um casal: Natália e Pablo. No último verão, nasceu seu neto, o pequeno Oscar. Tudo como manda o figurino. Bom marido, bom pai, bom avô, bom escoteiro. Um exemplo. Nada que o desabone. Semana passada, quando a família retornou de viagem, o corpo de Vladislau foi encontrado ao lado de um calibre 38, na poltrona da sala de seu apartamento de frente pra tv onde passava um daqueles programas dominicais de auditório. O bilhete caído em seu colo tinha como destinatário um tal “Frank”: “Velho camarada, dizem que quando a gente está morrendo ou sabe que vai morrer vem um filme de nossa vida em flashback na cabeça .Engraçado, só me ocorre agora um riff de guitarra do AC/DC”.



: Concerto triste para caixinha de música

Gaspar é Repolho, palhaço do Circo Maverick. Há um bom tempo suas gags estão um tanto quanto ultrapassadas. Seus números têm sido um bocado sem graça. “Decadência” fala Spencer, o anão. “Velhice”, acredita Toniolo, o domador de leões. Repolho (ou Gaspar) em muitas apresentações se limita apenas em sentar no banco no centro do picadeiro e cabisbaixo tocar sua sanfona de brinquedo, arrancando vaias da platéia. “Tá bêbado”, “Cai fora, vagabundo”, urram uns. “É uma crise passageira”, sentencia Prateado, o homem-bala. Só mesmo Gaspar (ou Repolho) sabe bem o que acontece quando uma melodia triste ecoa de sua sanfona durante o show. “Deve ser por causa da trapezista”, comenta Silver, o atirador de facas. Não. O que angustia o coração baldio do palhaço toda noite em seu velho trailer não é a trapezista, tampouco qualquer crise. Não é a velhice e nem a evidente decadência. Seu nome é Ofélia, namorada de Rasputim, o mágico. Na verdade, Monga – a mulher gorila.

22/01/07



robô com cabeça de televisão introduzindo o pênis número trinta e dois na vagina postiça da fêmea de látex

despencou do céu com o rabo sujo de merda e as narinas machucadas pela cocaína. arrastando as asas imundas lacrimejou um filete de sangue que escorreu pelas faces coradas da criança.
estigma. camisa-de-força-de-vênus. esperma no pênis da estátua grega.
olhos telescópicos observam a vulva de pétalas vermelhas – o pau está sempre ereto, desesperadamente ereto, mesmo que não esteja -, seios postiços da mãe inflável, fotos peladas.
a boca amordaçada com batom. os homens-espacate foram capturados pela carrocinha. poluir-se a si mesmo.
os laboratórios do Vaticano fabricaram a sífilis, os da ONU, a AIDS. mulheres grávidas de culpa. castidade crucificada, impureza decaída. santa-puta. estupro em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém.
um Cigarro fuma marilyn monroe. a estética do código de barra. libido legislada. mentiras registradas no cartório.
-- ampute teu seio esquerdo! ele sugou o câncer, ela cagou fetos.
a noiva segura um punhal. o caralho de celulose, a boceta de celulóide e o coração de silicone. amantes à venda no açougue. enquanto isso mosquitos copulam. deus se come. a felação dos vampiros. coito-cólera. subiu ao céu com as asas cauterizadas. um homem e uma mulher se beijam usando máscaras de oxigênio. o amor é um decreto.

(texto publicado originalmente no extinto Falaê em 2001)

21/01/07



Calvero: como é que se tira essa maquiagem?
Tony: este jogo todo é uma grande mentira!
Calvero: com qual alegoria nós vamos desfilar para sempre diante de tanta calamidade?
Tony: pobre de nós. por mais quantos séculos?
Calvero: a felicidade é um souvenir vagabundo.
Tony: deus come pipoca enquanto assiste à tv.

[calvero cola uma estrela no céu. tony anda em seu monociclo]




20/01/07

FANTASMAS



: Homem-coelho

A lembrança mais remota que João guarda de sua infância é a de sua mãe baixando seu calçãozinho azul do Mickey e lambendo sua virilha, para em seguida fazer “coisas feias” com ele. Devia ter seus cinco ou seis anos, não sabe ao certo.
A partir de então um homem fantasiado de coelho carregando balões coloridos sempre bate à porta de sua cabeça as seis em ponto. Os balões escapam de sua mão e desintegram-se misturados ao éter. O homem tira a cabeça de coelho e chora. Ele tem dentes de coelho. Chora pra cachorro o desgraçado.
João passou a vender balões coloridos em um parque de diversões desativado. Não existe nada mais melancólico que um parque com suas luzes apagadas à noite.
Ainda estão lá no terreno baldio alguns sujos cavalinhos do carrossel, uns destroços envelhecidos da roda-gigante, os trilhos enferrujados do trem-fantasma e os balões coloridos de João.
Há tempos as crianças não se interessam mais por balões coloridos.





: Mil néons para Laura Scarlat

Garbosa como Greta, a iluminação dos postes era seu spotlight, diva Dietrich. Hollywood é logo ali, na Augusta. O único beijo, porém, happy end da noite, era o da lua na boca da sarjeta.

13/01/07



: Chico Buarque song

F tem um dragão chinês tatuado nas costas com chamas lambendo seu ombro & cauda deslizando até o cóccix. O dragão com asas de anjo serpenteia conforme F se movimenta. Entreva-se em seus longos cabelos noturnos. Bailarina Yakuza. F tem um sorriso de morfina & olhos de fogos de artifício. Pintura Kabuki. Rara porcelana quebrada.




: El baile de los muertos

El Diablo foi um obscuro lutador de Telecatch nos anos 60. Quando a Luta Livre perdeu popularidade, viu-se obrigado a trabalhar como leão-de-chácara em puteiros na augusta. No entanto, tudo isso ficou pra trás. Agora El Diablo vive de servicinhos sujos, basta que molhem sua mão. Ainda guarda a máscara que costumava usar no ringue. Chega até a usá-la em “trabalhos especiais”. A recorrente lembrança de fedelhos e senhorinhas xingando-o quando deferia algum golpe no lutador adversário invade sua cabeça sempre que lustra seu soco-inglês ou quando sua 9mm irrompe a calmaria de madrugadas silenciosas.