20/09/07

FANTASMAS



: Homem com Roupa de Gorila

A lembrança desbotada de uma criança correndo no prado me asfixia, solfejo as notas da caixinha de música que ficava em cima da antiga penteadeira. Vamos sonhar o mesmo sonho com aquele velho remorso derramado? Um parque de diversões desativado, a fria noite de outono, as luzinhas da cidade no horizonte, seu débil sorriso a meio fio, seus olhos castanhos de véspera.
Meu anjo, todas as palavras que deixei de te dizer terão cheiro de chuva agora que o enegrecido manto noturno te toma pelas mãos.
Caminharemos na alameda sob o crepúsculo, na bruma delicada do esquecimento.

Com devoção, Homem Gorila





: Subterrâneo

Cheirou a última carreira e esvaziou a garrafa de Jack Daniels.
Na vitrola silenciosa, um velho disco de Dolores Duran. Atravessou a cidade feito louca com os olhos manchados de lágrimas, borrão de luzes: néons, semáforos, faróis de carros.
Acordou às 6 da manhã com o corpo todo dolorido e a lembrança de um telefone mudo e impassível, sonhou que havia tocado feito sino em catedral, mas quando foi atender, ouviu a voz do outro lado: “Estação Consolação, desembarque do lado esquerdo do trem”.