10/11/07


foto: SS

Castelos de areia da noite que a aurora despedaçou

Onírico. Éter. Descendo, descendo. Raiozinhos de sol detrás das nuvens de geléia. Descendo, descendo abordo de um trem fantasma. Pássaro de asas invisíveis. Descendo, descendo até o fim. Pra sempre. Derretendo como sorvete de framboesa. Ícaro. Um sorriso no canto da boca. Descendo, descendo. Oceano de cabeça pra baixo, abóbada refletida. Mil peixes coloridos. Mil feixes de luz. Cristalino. Bolhas de sabão no ar. Uma cidade estranha. Unção. Descendo, descendo. Pêndulo. Zepelim de chumbo. O horizonte e o ponteiro do relógio. O cruzeiro do Sul. Descendo, descendo. Um som de cítara emoldura o azul celeste. Emoldura o silêncio longínquo. Descendo, descendo. Peito nu. Ocaso escarlate. Vento. O cume da montanha. Orvalho. Descendo, descendo. Lúcifer. Sereno da madrugada. Via Láctea. Um disco voador no canto do céu. Conchas e estrelas do mar na areia úmida. Neblina. Um poste de luz ilumina a rua de paralelepípedo. Sombras. Vésper. Descendo, descendo. Do perfume do frio emergem lembranças. Descendo, descendo. Escafandro. Submarino amarelo. Violetas na janela. O sótão. A Ursa Maior. Flash Gordon. Descendo, descendo, descendo. Outono. A ceifadora ri. Anjos caídos. Uma menininha com longos cabelos encaracolados cor do sol segura sua mão. Canção de ninar. Móbiles. Descendo, descendo. Fade Out. Um vagido.

08/11/07

JOÃO:



A lembrança mais remota que João guarda de sua infância é a de sua mãe baixando seu calçãozinho azul do Mickey e lambendo sua virilha, para em seguida fazer “coisas feias” com ele. Devia ter seus cinco ou seis anos, não sabe ao certo.



A partir de então um homem fantasiado de coelho carregando balões coloridos sempre bate à porta de sua cabeça as seis em ponto. Os balões escapam de sua mão e desintegram-se misturados ao éter.

O homem tira a cabeça de coelho e chora. Ele tem dentes de coelho. Chora pra cachorro o desgraçado.

João passou a vender balões coloridos em um parque de diversões desativado. Não existe nada mais melancólico que um parque com suas luzes apagadas à noite.

Ainda estão lá no terreno baldio alguns sujos cavalinhos do carrossel, uns destroços envelhecidos da roda-gigante, os trilhos enferrujados do trem-fantasma e os balões coloridos de João.



Há tempos as crianças não se interessam mais por balões coloridos

04/11/07

ZOO




02/11/07

arquivo morto



Em 1993, fiz está capa para a edição número 26 do zine Panacea, heroicamente editado por J.M.M. Kazi e Gabriela Dias. A tiragem era de mil exemplares, distribuídos pela Devir. Esta edição trazia a série "Frindly Dictators", desenhada por Bill Sienkiewicz e escrita por Laura Siedel e Dennis Bernstein, traduzida pelos editores. Tinha também matéria com a banda Mickey Junkies, a "Run, Xerox", onde Kazi falava de vários zines, e uma matéria sobre o Lobo Solitário, entre outras coisas legais. Lembro que o zine acabou virando revista, muito boa por sinal, mas sucumbiu à maldição da sexta edição. Quem curte quadrinhos, música e literatura deve se lembrar da Panacea.



Em 1994, editei o zine-livreto "Poesias Autistas", com textos (todos datilografados) e desenhos de minha autoria. Foram 200 cópias em off-set. Lembro que deixava em consignação em algumas lojas de discos, HQs, sebos, etc e nunca voltava pra saber se tinha vendido ou não (o valor era apenas simbólico). Também distribuía pelo correio. Vender de mão em mão eu nunca tive a manha, sou do tipo que não consegue vender água no deserto. Claro que olhando hoje, mexeria em quase tudo que está aqui, ou quiçá nem publicaria. Naquela época, contudo, acredito que fiz o que tinha que ser feito. Então tá valendo. Abaixo um dos textos publicados:

santa-puta

ela dança a síndrome de down
desenvolvendo coreografias subdesenvolvidas
maquila de preto seus olhos de néon
amordaça com batom
a boca
ela tem o rosto de santa
e os lábios de puta
me fala
muda
me embriaga
pétala