
Granada
La Carne
Lembro de uma música do De Falla em que Edu K cantava que “Osasco é Foda!”. O município localizado na zona Oeste da capital, cidade que viu o escritor João Antonio chutando tampinhas pelas suas ruas, sempre me pareceu mesmo uma usina de bandas legais: do punk rock do Malavelha, passando pelo grindcore do Rot e o thrash do Antítese, o rockabilly dos Grilos Barulhentos, até um dos pioneiros do rock independente, o Mickey Junkies. Isso sem falar no Subtotal, no Mamilos Vicious e mais uma porrada de nomes interessantes que nasceram e cresceram na região. Osasco também abrigou um sem número de botecos onde grande parte dessas bandas puderam se apresentar, como o Porto Guadalajara, a Kawashi, o Taco & Birra, o Arena Metal.
Por outro lado, é muito triste constatar que todos esses lugares não existem mais. Muitos, inclusive, duraram pouco. Osasco é uma cidade de vida cultural provinciana, ligada a projetos politiqueiros e grupinhos formados pelos “artistas da cidade”, quase sempre virando as costas para figuras como a do poeta Paulo Netho, que tenta desde sempre estabelecer um espaço efervescente de cultura na cidade. As próprias bandas citadas acima há tempos não tocam na região, que está mais preocupada em instalar novos shopping centers e igrejas evangélicas do que apostar em seus “filhos” mais pródigos. Até aí nenhuma novidade, afinal essa sempre foi a política do sistemão.
É justamente de Osasco, de um bairro da região ferroviária chamado Quitaúna, mais conhecido pelo famigerado Quartel do Exército, palco de verdadeiros temores juvenis em época de alistamento, que vem umas das bandas mais instigantes do cenário underground nacional: o La Carne. Os caras lançaram no final do ano passado, sempre no bom e velho esquema do faça você mesmo, Granada seu quarto disco.
Surgida em
Formada por Marcos Linari (Maninho para os mais chegados) nos vocais & letras, Carlos Remontti no contrabaixo, Jorge Jordão na guitarra e Leandro Reinikova (mais conhecido como Chicão) na bateria, a banda traz em seu liquidificar sonoro referências musicais como Wedding Present, Screaming Trees, New Model Army, Hüsker Du, Smack e Fellini. Referências estas que se misturam a literatura beatnick, Bukowski e toda a cacofonia da cidade industrial em que vivem. Aliás, alguns dos versos de Linari são os que melhor traduzem os becos e o clima de Osasco. Muita gente nem sequer ouviu falar deles. Tudo bem, é que os caras não freqüentam os basfounds indies, repletos de esnobes filhinhos-de-papai recém saídos de uma faculdade de moda, praticando seu inglês imperialista de merda como bons chimpanzés do terceiro mundo, tampouco têm videoclipe veiculado na MTV e nem são sensação no myspace. Nunca li uma matéria sobre eles na Rolling Stone. É só uma banda de trabalhadores, da “classe trabalhadora” como costumam dizer, caminhando por uma estrada construída por eles próprios e mais ninguém.
O trabalho gráfico de Vânia Ferreira merece destaque, muito embora eu prefira a arte da capa de Flávio Remontti para a versão para download lançada pelo site Senhor F Virtual.
Granada, como os outros discos da banda, exige uma audição atenta. Na primeira passada pelas faixas, têm-se a falsa impressão de certa linearidade musical, logo dissipada num segundo passar de ouvidos pelas canções do álbum, demonstrando uma coesão de idéias melódicas ao invés de qualquer sugestão de horizontalidade.
Em “Contracorrente”, faixa que abre o disco, o baixão à Peter Hook bem marcado, completa, com as batidas retas de Chicão, uma cozinha segura e coesa, emoldurando em looping o característico timbre de Jorge com seu conceito de guitarra limpa, como nos discos anteriores, deixando de lado, feito uma espécie de velho bluesman enfurecido, o uso de qualquer pedal de efeito. Linari destila em canto límpido versos que soam como profissão de fé dos la carnes: “Eu disse pra você, íamos ter que suportar isso / Vão nos deixar viver? / Ou nos jogar com a cara no chão? Mesmo que enfim digam não, ou que nos lancem maldição, conheço um jeito baby...”. Logo de cara, uma das melhores do disco e, em minha opinião, ao lado de “clássicos” como “Viaduto do Sol”, “Demônio Triste”, “Jukebox” e “Desconhece o Rumo mas se Vai”, uma das melhores do La Carne.
Em seguida, a faixa que dá nome ao disco traz uma balada ao mesmo tempo climática e nervosa em sua dinâmica alternada, desta vez com o baixo de Carlinhos na cara e Linari mostrando nuances no modo de cantar. Outro “clássico” que ao meu ver se junta à lista acima citada. Só acho que a voz na gravação ficou na mesma intensidade do baixo e da guitarra, deixando-a por vezes abafada. Pensei na voz mais à frente nesta música, já que ela é em grande parte falada, remetendo ao estilo de cantar de Lou Reed.
“Malasuerte” é uma crônica de personagens urbanos, daqueles típicos loucos decadentes que habitam as ruas sujas de qualquer bairro. Há uma citação do poema “Elegia a Dona Joana, a Louca” de Federico Garcia Lorca, na voz de Fernanda D’umbra, atriz e cantora da banda Fábrica de Animais que, a meu ver, ficou abafada e um pouco baixa na gravação.
“Blues dos seus Absurdos”, um hard rock com toques de psicodelia, é a melhor canção de Granada, em que todos os elementos que fazem do La Carne uma banda ímpar aparecem de uma forma cristalizada: vocal melódico, guitarra limpa, baixo bem marcado e bateria pesada. “Trago um sorriso torto no rosto, e no peito eu trago o seu punhal / (...) Trago a minha estrada no rosto e te devolvo agora o seu punhal ”. Linari tem um jeito muito particular de escrever, com sua prosódia torta, em letras que se aproximam mais de estruturas prosaicas, sem, no entanto, deixar de reverberar toda sua poesia suja e, por vezes, raivosa. Em “Decida” ele canta “Amor, tenho 40 anos e acho que não aprendi nada”, uma verdadeira pérola. Já na letra punk de “Tratadus Pilantrae (T.G.P.)”, fala que a tal revolução “virou pastelão, sabor mensalação” e pergunta “A revolução, no cheque ou cartão?”.
Em “Sambakaus”, um rock instrumental com andamento de samba, com direito a apito e tudo, o La Carne faz uma brincadeira experimental. “Vergonha na Cara”, outra grande faixa, a guitarra dita o ritmo, deixando caminho aberto para o jeitão malandro de cantar de Linari, zoando as figurinhas afetadas do hype. “Ancestrais” tem um puta baixo e vocais mais rasgados. A esta altura já tinha me convencido que a entrada de Chicão na batera tinha trazido mais “pegada” à banda, o que pude constatar em um show ao vivo no auditório do Sesc Vila Mariana. “Londres está uma Merda” completa a quina das minhas preferidas do disco e vai para minha coletânea particular do La Carne.
Dois estilhaços finalizam o disco, a balada “Olhos Escuros” e a instrumental “El Cid”, com um interessante arranjo de sanfona de oito baixos.
Granada, embora careça de direção musical (economizaram nos agudos), é um disco que consolida definitivamente o La Carne na posição das principais bandas de rock do país, alçando-os ao mesmo patamar da Patife Band do Paulinho Barnabé e da Butchers Orchestra do “açogueiro” Marcos Butcher.
Muito embora eu tenha nascido no outro extremo da cidade, no bairro do Tatuapé, vivi alguns anos em Osasco. Há um tempo mudei de lá, mas quando ouço um trabalho como Granada, sempre me sinto acometido de uma vontade incontida e de um orgulho besta em repetir em alto e bom som o refrão do bardo gaúcho: “Caminha, que aqui é de Osasco!”





